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Fim da taxa das blusinhas pode afetar demanda e preço do algodão


13/05/2026
Brasil
Contábeis

O eventual fim da chamada “taxa das blusinhas”, tributação aplicada a compras internacionais de pequeno valor no programa Remessa Conforme, pode pressionar os preços e reduzir a demanda doméstica por algodão, segundo representantes do setor.

Atualmente, cerca de um terço da produção brasileira de algodão permanece no país para ser transformada em produto final.

 

Setor vê risco para cadeia têxtil nacional

Márcio Portocarrero, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), afirma que a demanda interna por algodão tende a diminuir caso a tributação seja encerrada.

“Com o fim da taxação, os consumidores podem voltar a priorizar o comércio on-line de roupas importadas e não fabricadas no Brasil, o que representa um risco para toda a cadeia têxtil nacional”, disse à CNN Brasil.

Segundo ele, uma queda na demanda doméstica pode levar os produtores a buscar novos mercados no exterior.

“Caso haja uma redução da demanda interna por algodão, a tendência é que os produtores busquem novos mercados internacionais capazes de absorver essa produção, ampliando o volume exportado de algodão brasileiro”, explicou.

 

Preço do algodão em pluma pode ser pressionado

Portocarrero também avalia que a redução no consumo interno pode pressionar e desvalorizar os preços do algodão em pluma.

Segundo ele, esse cenário ocorre em um momento em que produtores já operam com margens apertadas.

A eventual queda de preços poderia motivar diminuição na área plantada.

 

Como funciona a taxa das blusinhas

O programa Remessa Conforme aplica imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 feitas em sites do exterior.

Para compras entre US$ 50,01 e US$ 3 mil, a tributação é de 60%.

Segundo dados da Receita Federal, o Remessa Conforme arrecadou R$ 9,6 bilhões desde sua implementação, em agosto de 2024.

Em 2024, a arrecadação chegou a R$ 2,88 bilhões. Em 2025, foram captados R$ 5 bilhões. Até abril de 2026, a arrecadação somou R$ 1,78 bilhão.

 

Abit critica fim da tributação

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) se manifestou contra o fim da taxação prevista no Remessa Conforme.

A entidade afirma que a revogação pode desestimular empregos na indústria nacional, desacelerar a economia e reduzir a competitividade frente a mercados internacionais, como o chinês.

Para Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit, a medida pode gerar efeito em cadeia sobre a demanda por algodão.

“Em relação ao algodão, principal matéria-prima da cadeia têxtil brasileira, é natural que o consumo doméstico acompanhe o desempenho da própria indústria têxtil e de confecção nacional. Quanto maior a produção local, maior tende a ser o consumo interno de algodão”, disse à CNN Brasil.

“Se houver um avanço ainda maior das importações de produtos acabados por meio das plataformas internacionais, especialmente em condições desiguais de concorrência, a tendência é de redução da produção nacional e, consequentemente, de menor demanda doméstica por algodão”, destacou.

 

Entidade defende produção com valor agregado

Na avaliação da Abit, exportar apenas matéria-prima gera menos valor agregado, empregos, renda e arrecadação do que transformar algodão em fios, tecidos, roupas e produtos confeccionados no Brasil.

“Do ponto de vista econômico, uma eventual eliminação da tributação das pequenas encomendas internacionais pode ampliar a pressão sobre a indústria e o varejo nacionais, afetando investimentos, produção, arrecadação e empregos formais em toda a cadeia têxtil e de confecção brasileira”, concluiu.

 

Setor têxtil fatura R$ 221 bilhões

Segundo dados da Abrapa, o setor têxtil e de confecção fatura R$ 221 bilhões por ano.

As exportações somam US$ 908 milhões anuais.

Já as importações chegam a US$ 6,6 bilhões, mesmo com a “taxa das blusinhas”, o que gera déficit de US$ 5,7 bilhões na balança comercial.

O setor emprega 1,31 milhão de pessoas em mais de 25 mil empresas no Brasil.

 

Governo discute impactos da medida

A permanência da “taxa das blusinhas” é defendida pelo vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin.

Segundo ele, o programa de taxas protege a indústria nacional, especialmente a ligada a produtos de baixo valor.

Defensores da medida também afirmam que a arrecadação do programa contribui para o cumprimento da meta fiscal do governo, de superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB).

Em entrevista à CNN Brasil, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, afirmou que o tema envolve complexidades por afetar o varejo e o comércio nacional.

Segundo ele, o governo ainda discute a eventual revogação da medida e seus impactos.

 

Pesquisa aponta impopularidade da taxa

Em março, a pesquisa Latam Pulse Brasil, divulgada e apurada pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, apontou que a “taxa das blusinhas” foi considerada o maior erro cometido pelo governo Lula até então.

O resultado reflete a avaliação de 62% dos brasileiros e classifica a medida como impopular.


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