Utilitários Contábeis

NCONSISTÊNCIAS CONTÁBEIS - Americanas: entenda qual foi o erro e quem deve ser responsabilizado


18/01/2023
Brasil
Contábeis

A inconsistência contábil da Americanas deve levar outras empresas do setor a revisarem suas próprias contas.  Afinal, a operação de risco sacado, também conhecida como "forfait" ou financiamento a fornecedores, é comum em todo o varejo. 

Na visão da ex-diretora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e professora da FGV Luciana Dias, os auditores vão ficar mais rigorosos em relação às políticas contábeis. 

No entanto, segundo ela, ainda é cedo para apontar culpados, visto que as informações ainda são escassas e é necessário entender as verdadeiras dimensões do problema. O comitê independente da empresa e a CVM vão analisá-lo.

"É necessário responder onde houve falha na cadeia de governança", disse a advogada em entrevista ao Valor.

Confira abaixo as respostas às principais dúvidas sobre a inconsistência contábil na Americanas e os possíveis impactos para o setor, de acordo com a especialista.

Já é possível identificar como aconteceram os problemas da Americanas?

Pelas divulgações que já foram feitas, não temos certeza se é uma questão de política contábil ou controles. O fato relevante [que anunciou inconsistências contábeis] não deixa isso claro. Precisamos de mais informações e o comitê independente que  foi criado vai olhar a forma como essas discussões foram feitas. 

As operações de risco sacado acontecem diariamente e de vários modos no varejo. A forma como é contabilizada é a questão. Me parece que é um problema que não passa despercebido e não é uma questão nova. Como essa é uma operação conhecida no varejo, é uma questão que costuma ser levantada e analisada pelos auditores. 

Sem mais informações, ainda estamos no escuro. Precisa ser analisado o que aconteceu para se chegar a esse estágio. Se houve falta de controles, é um problema de governança. Se foi a adoção de uma política contábil mais ousada, é preciso ver como o auditor tratou isso.

Como avalia o comunicado feito pelas Americanas?

Em geral, as empresas fazem este tipo de divulgação com mais informações para o mercado para não gerar especulações. Hoje, na Americanas, o investidor não sabe se é um problema de controles ou de política contábil, e qual é o verdadeiro tamanho do problema.  

Trocar os dois executivos mais importantes da companhia e eles renunciarem logo em seguida pode exacerbar a dimensão do problema. 

Há questões de governança que não são necessariamente fraudes. Não ter controles específicos, não ter discussões nas notas explicativas é bastante intrigante do ponto de vista de governança. 

O fato relevante não menciona quando surgiu a desconfiança do problema, quem está solucionando. Mesmo que não tenha fraude, pode haver problemas de governança relacionados à falta de controles. Há aperfeiçoamentos de governança a se fazer, qual o tamanho não sabemos. É possível ter um problema de governança que não é desonestidade.

Uma regulação mais rígida poderia ter impedido o problema?

Eu acho difícil, porque adotamos as normas do International Financial Reporting Standards (IFRS) em 2007 e hoje em dia estamos 100% adequados a elas. 

A CVM não pode regular diferente do IFRS, o que ela pode trazer com mais clareza são suas interpretações a respeito do tema por meio dos ofícios circulares. 

O IFRS dá espaço para que a companhia faça julgamentos contábeis, estabeleça políticas contábeis e explique as opções feitas nas demonstrações financeiras. As companhias com boa governança levantam as questões mais relevantes para aquele assunto e discutem nas instâncias de governança adequada. 

Isso precisa ser documentado para que as informações não se percam, e devem ser estabelecidos controles para que essas políticas sejam adequadamente implementadas. É nesse caminho que vai estar a resposta. É necessário responder onde houve falha na cadeia de governança.

Como fica o papel dos auditores diante de uma situação como essa?

Os auditores justamente têm que levar os debates para as companhias. Eles revisam as informações e aquelas que são pertinentes para as empresas são debatidas com os comitês de auditoria, por exemplo. 

Ou seja, os auditores têm o papel de chamar atenção para o que a CVM destacou em um ofício circular, de levantar questões importantes para a companhia, debater, fazer perguntas. 

Por isso seria muito estranho se isso não tivesse sido debatido dentro das Americanas. Mas, sem investigação, não dá para tirar conclusões.

O auditor deve sempre identificar fraudes, como deveria agir nesse caso? Como entender até que ponto os auditores são responsáveis?

A CVM tem alguns casos de fraude contábil e alguns casos de discordância de políticas contábeis, que são situações diferentes. 

Uma coisa é discordar e outra é fraudar, mas tanto em caso de políticas contábeis ou de fraudes ela primeiro vai responsabilizar a administração da companhia, e vai ver em que medida o auditor poderia ter capturado aquela fraude, se for o caso. 

Um processo contra o auditor poderá ser aberto se identificar falhas no trabalho dele, depois que tiver identificado o problema. 

Só vamos saber o nível de responsabilidade que vai se atribuir ao auditor um pouco mais para frente quando entendermos qual é o problema. Pode envolver o auditor do ciclo anterior e não só o atual.  

O fato de ter mudado de auditor sem nenhuma indicação de problema é algo que possivelmente indica que é um problema de controles e não de política.

Tem alguma lição deixada para o mercado brasileiro?

Os varejistas estão acostumados com essa operação, mas imagino que quem é do varejo está fazendo perguntas lá dentro e vendo como isso é contabilizado. 

Em 2016, a CVM tinha notícia de que muitas empresas brasileiras adotaram a prática [referente ao risco sacado] e que poderia distorcer os números dos balanços, e divulgou um ofício circular sobre o assunto. Não dá para acreditar que 100% se corrigiam. Agora, temos a notícia que uma das maiores do país não refletiu, ao menos não o suficiente, sobre o assunto. 

As companhias varejistas devem estar revendo suas práticas para entender se há algo a se fazer. Não me espantaria que companhias de varejo façam anúncios de revisão de políticas contábeis ou números. Os auditores vão ficar mais rigorosos. [Em momentos como esse], aproveitam a oportunidade para rever práticas das companhias que auditam. 

Teria sido melhor se a CVM tivesse tido braços para pedir essas informações e dar oportunidades para as empresas se corrigirem naquela época, se tivesse braços para supervisionar as empresas, dando um tempo para se adaptarem de forma mais educativa. 

Quando acontece por meio de um incidente desse tamanho, é aquela procura do tempo perdido. O pessoal vai começar a revisar as próprias práticas, estabelecendo discussão com auditores.

Com informações do Valor Econômico


O nosso site usa cookies

Utilizamos cookies e outras tecnologias de medição para melhorar a sua experiência de navegação no nosso site, de forma a mostrar conteúdo personalizado, anúncios direcionados, analisar o tráfego do site e entender de onde vêm os visitantes.

Centro de preferências de cookies

A sua privacidade é importante para nós

Cookies são pequenos arquivos de texto que são armazenados no seu computador quando visita um site. Utilizamos cookies para diversos fins e para aprimorar sua experiência no nosso site (por exemplo, para se lembrar dos detalhes de login da sua conta).

Pode alterar as suas preferências e recusar o armazenamento de certos tipos de cookies no seu computador enquanto navega no nosso site. Pode também remover todos os cookies já armazenados no seu computador, mas lembre-se de que a exclusão de cookies pode impedir o uso de determinadas áreas no nosso site.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são essenciais para fornecer serviços disponíveis no nosso site e permitir que possa usar determinados recursos no nosso site.

Sem estes cookies, não podemos fornecer certos serviços no nosso site.

Cookies funcionais

Estes cookies são usados para fornecer uma experiência mais personalizada no nosso site e para lembrar as escolhas que faz ao usar o nosso site.

Por exemplo, podemos usar cookies de funcionalidade para se lembrar das suas preferências de idioma e/ ou os seus detalhes de login.

Cookies de medição e desempenho

Estes cookies são usados para coletar informações para analisar o tráfego no nosso site e entender como é que os visitantes estão a usar o nosso site.

Por exemplo, estes cookies podem medir fatores como o tempo despendido no site ou as páginas visitadas, isto vai permitir entender como podemos melhorar o nosso site para os utilizadores.

As informações coletadas por meio destes cookies de medição e desempenho não identificam nenhum visitante individual.

Cookies de segmentação e publicidade

Estes cookies são usados para mostrar publicidade que provavelmente lhe pode interessar com base nos seus hábitos e comportamentos de navegação.

Estes cookies, servidos pelo nosso conteúdo e/ ou fornecedores de publicidade, podem combinar as informações coletadas no nosso site com outras informações coletadas independentemente relacionadas com as atividades na rede de sites do seu navegador.

Se optar por remover ou desativar estes cookies de segmentação ou publicidade, ainda verá anúncios, mas estes poderão não ser relevantes para si.

Mais Informações

Para qualquer dúvida sobre a nossa política de cookies e as suas opções, entre em contato conosco.

Para obter mais detalhes, por favor consulte a nossa Política de Privacidade.

Contato