Utilitários Contábeis

NR-1: os riscos que passam a exigir atenção do RH


14/04/2026
Brasil
Exame

No cenário corporativo, a saúde mental no trabalho deixou de ser um tema periférico para se tornar o centro das atenções regulatórias e de gestão. Com a atualização da NR-1 (GRO- Gerenciamento de Riscos Ocupacionais), que exige o gerenciamento de riscos psicossociais desde o ano passado, as empresas brasileiras enfrentam o desafio de identificar não apenas o óbvio, mas também aspectos subjetivos que criam ou mantêm colaboradores em ambientes tóxicos.

Um dos fenômenos mais complexos, menos debatidos e compreendidos nesse contexto é a conexão entre o assédio moral, os riscos psicossociais e a Síndrome de Estocolmo. Por que profissionais permanecem em relações laborais abusivas ou, pior, sentem a necessidade de retornar a elas?

 

O impacto do assédio moral e dos riscos psicossociais

Para analisar esse trio, é necessário entender seus elementos:

  • Assédio Moral: É a exposição- de forma repetitiva e prolongada- dos trabalhadores, durante a jornada de trabalho, a situações humilhantes e constrangedoras. É um processo que visa desestabilizar emocionalmente a vítima, destruindo sua autoestima.
  • Riscos Psicossociais: Decorrem de falhas na organização e gestão. Cargas excessivas, baixa autonomia e suporte insuficiente (ou mesmo ineficaz tratamento de casos de assédio moral) não são apenas "problemas de gestão", mas riscos que geram danos físicos e mentais reais, como burnout e depressão.
  • Síndrome de Estocolmo: Uma resposta psicológica subconsciente em que a vítima, sob forte tensão, abuso ou medo, desenvolve simpatia ou laços emocionais com o agressor.

A conexão é direta: o risco psicossocial mal gerido cria um ambiente fértil para o assédio. O assédio, por sua vez, (quando não tratado), coloca a vítima em um estado de vulnerabilidade tão extenso que a Síndrome de Estocolmo pode emergir como um mecanismo de defesa psíquica.

Para a alta gestão e para os responsáveis por Compliance, RH e Governança, é essencial distinguir uma liderança exigente — legítima em ambientes de alta responsabilidade — de uma liderança estruturalmente abusiva.

A Psicanálise alerta que o assédio moral não é apenas um conflito pontual, mas muitas vezes uma estrutura de personalidade, o que exige atenção redobrada nos processos de promoção e manutenção de lideranças.

 

O perfil do gestor perverso narcisista

Nesse contexto, destaca-se a figura do gestor perverso narcisista, que é aquele que não sente empatia e utiliza o outro como um objeto para inflar o próprio ego. Diferentemente de um líder rigoroso, que cobra resultados preservando a dignidade do subordinado, o perverso narcisista obtém satisfação psíquica na desqualificação do outro, minando sua autonomia e autoestima.

Para o executivo e para os responsáveis pelos mecanismos de controle interno, alguns padrões comportamentais recorrentes merecem atenção:

 

  1. Sedução inicial e apropriação simbólica: o gestor apresenta-se – inicialmente - como carismático, colaborativo e altamente competente. Com o tempo, apropria-se das ideias e qualidades dos subordinados, reforçando sua posição de centralidade.
  2. Ausência de culpa e inversão de responsabilidade: Não demonstra remorso ou autorreflexão. Quando confrontado, recorre à inversão de narrativa e coloca-se como vítima ou atribui falhas à suposta incompetência do subordinado, quando não transforma críticas legítimas em ataques pessoais.
  3. Comunicação como instrumento de dominação: Utiliza a comunicação não para conectar, mas para confundir, desestabilizar ou silenciar: recusa o diálogo direto, usa ironias e não dá instruções claras (quando não ambíguas), impedindo o outro de pensar, reagir ou mesmo se defender.

Esses comportamentos não devem ser analisados isoladamente ou tratados como "estilo de liderança". Quando tolerados, produzem efeitos sistêmicos, corroem o capital humano e ampliam exponencialmente os riscos psicossociais da organização.

Promover ou manter esse tipo de perfil em posições de poder significa, a médio e longo prazo, institucionalizar o assédio moral como prática de gestão, com impactos diretos na saúde mental no trabalho e na responsabilidade legal da empresa.

 

A Síndrome de Estocolmo no ambiente corporativo

Diferentemente de um caso de cárcere, no trabalho ela se manifesta quando o colaborador passa a identificar-se com as crenças e objetivos do agressor. A vítima começa a ampliar pequenos gestos de "gentileza" — como um bônus inesperado ou elogio — para anular a percepção da violência sofrida.

É um ciclo perigoso no qual há negativa ou racionalização das agressões, onde medo é substituído por um desejo de proteção ao agressor, chegando ao ponto de a vítima testemunhar a favor dele ou sentir ressentimento contra quem tenta ajudá-la.

Antes da violência explícita, a Psicanálise aponta que o assédio frequentemente começa com uma fase de "sedução perversa". O agressor fascina a vítima, elogiando-a para criar uma dependência emocional e desarmar suas defesas críticas.

Isso explica por que a vítima (muitas vezes os melhores talentos) permanece: ela foi "enredada" psicologicamente antes de ser atacada. O gestor deve estar atento a relações de exclusividade excessiva ou "proteção" exagerada, pois isso pode ser o prelúdio de um isolamento abusivo.

Um ponto crítico é a manutenção da relação laboral mesmo sob abuso. Muitas vezes, o colaborador não permanece apenas por necessidade financeira, mas por um "vínculo afetivo distorcido". Isso explica situações de:

 

  • Rescisão Indireta (art. 483 da CLT): Quando o empregado solicita o desligamento judicialmente devido à falta grave do empregador, mas sente uma culpa profunda por fazê-lo.
  • Reestabelecimento da Relação: Casos em que, após um desligamento vexatório, o profissional aceita retornar à empresa sob promessas de mudança que nunca se concretizam.

 

Estratégias de controle e monitoramento para empresas

Para as empresas, identificar essas situações exige um cruzamento inteligente de dados. Não basta ter um canal de denúncias; é preciso saber ler as entrelinhas:

  • Análise de Dados: Cruzar relatos feitos ao Compliance, RH e/ou à alta liderança com entrevistas de desligamento e demandas judiciais.
  • Monitoramento Ambulatorial: O histórico de atendimentos médicos (respeitando o CRM e COREN) é um termômetro vital para identificar picos de estresse e adoecimento psicossomático.
  • Relatórios do SESMT: O Relatório Analítico do PCMSO (NR-7) contém uma análise detalhada dos dados de saúde, incluindo riscos ocupacionais e resultados anormais.

 

Cultura organizacional e o "cinismo viril"

A Psicanálise do Trabalho (Cristoph Dejours) identifica um mecanismo de defesa coletivo perigoso chamado "cinismo viril". Em ambientes de alta pressão, cria-se uma cultura onde o medo e o sofrimento são negados em nome da produtividade e da "coragem".

O risco psicossocial surge quando a empresa valoriza o colaborador que "aguenta tudo" sem reclamar, estigmatizando quem demonstra cansaço ou dúvida como "fraco" ou "incompetente".

Se a cultura organizacional ridiculariza o medo, ela está criando um terreno fértil para o assédio moral, pois o silêncio passa a ser visto como prova de força e o assédio torna-se uma ferramenta de gestão tolerada.

Muitos desses colaboradores podem apresentar sintomas de burnout ou Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), como flashbacks e ansiedade paralisante, exigindo o distanciamento do agente estressor.

 

Sinais invisíveis de adoecimento da equipe

Para além dos canais de denúncia, o gestor deve observar sinais invisíveis de que a saúde mental no trabalho está comprometida, baseados na perda de sentido da atividade:

  • Perda da criatividade: a equipe apenas executa ordens mecanicamente? A falta de pensar o trabalho é o primeiro sinal de medo instaurado.
  • Isolamento sistêmico: existe algum colaborador que está sendo gradualmente excluído das comunicações ou decisões?
  • Banalização do mal: Punições injustas, gritos ou humilhações são tratados como "brincadeira" ou "o jeito dele(a)"? É um sintoma grave de defesa coletiva.
  • Agressividade deslocada: a equipe briga entre si ou sabota processos? Quando a gestão é opressora, a agressividade é frequentemente deslocada para colegas ou clientes.

A conformidade com a nova NR?1 exige das organizações a capacidade de reconhecer dinâmicas invisíveis de adoecimento, especialmente quando comportamentos abusivos são mascarados por discursos de resiliência.

O colaborador considerado "forte" pode estar inserido em um processo profundo de vulnerabilidade psíquica, no qual o sofrimento é negado ou ressignificado como virtude.

Reconhecer que tais dinâmicas se estruturam em torno de práticas de assédio moral e riscos psicossociais mal geridos é um passo essencial para uma governança verdadeiramente responsável.

Ignorar essas questões significa não apenas falhar na proteção da saúde mental no trabalho, mas ampliar a exposição jurídica e reputacional da organização frente aos órgãos reguladores e ao mercado.

A gestão de riscos psicossociais não é apenas um imperativo normativo: é um compromisso ético com a dignidade do trabalho humano e com a sustentabilidade das organizações no longo prazo.


O nosso site usa cookies

Utilizamos cookies e outras tecnologias de medição para melhorar a sua experiência de navegação no nosso site, de forma a mostrar conteúdo personalizado, anúncios direcionados, analisar o tráfego do site e entender de onde vêm os visitantes.

Centro de preferências de cookies

A sua privacidade é importante para nós

Cookies são pequenos arquivos de texto que são armazenados no seu computador quando visita um site. Utilizamos cookies para diversos fins e para aprimorar sua experiência no nosso site (por exemplo, para se lembrar dos detalhes de login da sua conta).

Pode alterar as suas preferências e recusar o armazenamento de certos tipos de cookies no seu computador enquanto navega no nosso site. Pode também remover todos os cookies já armazenados no seu computador, mas lembre-se de que a exclusão de cookies pode impedir o uso de determinadas áreas no nosso site.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são essenciais para fornecer serviços disponíveis no nosso site e permitir que possa usar determinados recursos no nosso site.

Sem estes cookies, não podemos fornecer certos serviços no nosso site.

Cookies funcionais

Estes cookies são usados para fornecer uma experiência mais personalizada no nosso site e para lembrar as escolhas que faz ao usar o nosso site.

Por exemplo, podemos usar cookies de funcionalidade para se lembrar das suas preferências de idioma e/ ou os seus detalhes de login.

Cookies de medição e desempenho

Estes cookies são usados para coletar informações para analisar o tráfego no nosso site e entender como é que os visitantes estão a usar o nosso site.

Por exemplo, estes cookies podem medir fatores como o tempo despendido no site ou as páginas visitadas, isto vai permitir entender como podemos melhorar o nosso site para os utilizadores.

As informações coletadas por meio destes cookies de medição e desempenho não identificam nenhum visitante individual.

Cookies de segmentação e publicidade

Estes cookies são usados para mostrar publicidade que provavelmente lhe pode interessar com base nos seus hábitos e comportamentos de navegação.

Estes cookies, servidos pelo nosso conteúdo e/ ou fornecedores de publicidade, podem combinar as informações coletadas no nosso site com outras informações coletadas independentemente relacionadas com as atividades na rede de sites do seu navegador.

Se optar por remover ou desativar estes cookies de segmentação ou publicidade, ainda verá anúncios, mas estes poderão não ser relevantes para si.

Mais Informações

Para qualquer dúvida sobre a nossa política de cookies e as suas opções, entre em contato conosco.

Para obter mais detalhes, por favor consulte a nossa Política de Privacidade.

Contato