Utilitários Contábeis

O pesadelo da máquina pública


06/02/2026
Brasil
Contábeis

Nos últimos anos, o Brasil voltou a conviver com um velho conhecido: a expansão do custeio da máquina pública. Em 2025, essas despesas alcançaram o maior nível em quase uma década, justamente após um período de retração. O dado, que poderia se perder em meio à complexidade do orçamento federal, revela muito sobre escolhas que o País insiste em repetir.

O problema não está apenas no montante, mas no significado por trás dele. Entre 2016 e 2022, houve algum esforço (ainda que modesto) para conter o custo administrativo. Não se tratou de uma revolução na gestão pública, mas ao menos havia uma direção — tornar o Estado um pouco menos oneroso. A partir de 2023, essa trajetória se inverteu. O custeio voltou a crescer, e o ano passado consolidou essa guinada. 

Quando o governo destina mais recursos para manter prédios, contratos, sistemas, estruturas e serviços internos, sobra menos para políticas públicas essenciais. Cada avanço do custeio administrativo reduz o espaço para infraestrutura, pesquisa, educação, saúde e programas sociais. O espaço fiscal é limitado, além de essa despesa ocupar uma fatia cada vez maior desse espaço. Há ainda um efeito sobre o setor privado, frequentemente ignorado no debate. Gastos improdutivos pressionam o equilíbrio fiscal e, para fechar as contas, o governo tende a recorrer a três caminhos conhecidos: elevar impostos, ampliar a dívida ou reduzir investimentos. Nenhum deles favorece quem empreende, produz ou gera empregos, ao passo que mais tributos comprimem margens, mais endividamento pressiona os juros e menos investimento público deteriora a infraestrutura que a economia precisa para funcionar. Trata-se do efeito crowding out — o Estado ocupa espaço demais e sufoca o dinamismo do restante da economia.

O aspecto mais preocupante é que esse aumento do custeio não vem acompanhado de ganhos de eficiência. O Brasil segue com um Estado lento, burocrático e caro, muitas vezes incapaz de entregar serviços compatíveis com o próprio custo. Em vez de digitalizar processos, revisar contratos, enxugar estruturas físicas e modernizar a gestão, o País parece caminhar na direção oposta. A máquina cresce, mas não melhora. E esse movimento traz um incômodo adicional: o patamar atual de gastos administrativos remete ao período entre 2011 e 2016, quando o descontrole fiscal contribuiu para empurrar o País a uma das piores recessões de sua história. E, aqui, não estou ressuscitando fantasmas, mas reconhecendo que velhos erros começam a se repetir.

O caminho para corrigir esse quadro é conhecido. Revisão de contratos, digitalização de serviços, metas de eficiência, redução de estruturas físicas e modernização da gestão pública. Nada disso é novidade. O que falta é vontade política para combater interesses consolidados e romper com a lógica de que o Estado existe para si mesmo, e não para a sociedade.

Esse aumento do custeio administrativo deveria ser tratado como um alerta. Não é um detalhe contábil, mas um sintoma de que o Brasil continua priorizando despesas de baixo retorno e sacrificando aquilo que poderia estimular crescimento, produtividade e inclusão social. Enquanto essa lógica não mudar, permaneceremos presos ao mesmo ciclo de pouco investimento, baixo crescimento e um Estado que consome mais do que entrega.


O nosso site usa cookies

Utilizamos cookies e outras tecnologias de medição para melhorar a sua experiência de navegação no nosso site, de forma a mostrar conteúdo personalizado, anúncios direcionados, analisar o tráfego do site e entender de onde vêm os visitantes.

Centro de preferências de cookies

A sua privacidade é importante para nós

Cookies são pequenos arquivos de texto que são armazenados no seu computador quando visita um site. Utilizamos cookies para diversos fins e para aprimorar sua experiência no nosso site (por exemplo, para se lembrar dos detalhes de login da sua conta).

Pode alterar as suas preferências e recusar o armazenamento de certos tipos de cookies no seu computador enquanto navega no nosso site. Pode também remover todos os cookies já armazenados no seu computador, mas lembre-se de que a exclusão de cookies pode impedir o uso de determinadas áreas no nosso site.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são essenciais para fornecer serviços disponíveis no nosso site e permitir que possa usar determinados recursos no nosso site.

Sem estes cookies, não podemos fornecer certos serviços no nosso site.

Cookies funcionais

Estes cookies são usados para fornecer uma experiência mais personalizada no nosso site e para lembrar as escolhas que faz ao usar o nosso site.

Por exemplo, podemos usar cookies de funcionalidade para se lembrar das suas preferências de idioma e/ ou os seus detalhes de login.

Cookies de medição e desempenho

Estes cookies são usados para coletar informações para analisar o tráfego no nosso site e entender como é que os visitantes estão a usar o nosso site.

Por exemplo, estes cookies podem medir fatores como o tempo despendido no site ou as páginas visitadas, isto vai permitir entender como podemos melhorar o nosso site para os utilizadores.

As informações coletadas por meio destes cookies de medição e desempenho não identificam nenhum visitante individual.

Cookies de segmentação e publicidade

Estes cookies são usados para mostrar publicidade que provavelmente lhe pode interessar com base nos seus hábitos e comportamentos de navegação.

Estes cookies, servidos pelo nosso conteúdo e/ ou fornecedores de publicidade, podem combinar as informações coletadas no nosso site com outras informações coletadas independentemente relacionadas com as atividades na rede de sites do seu navegador.

Se optar por remover ou desativar estes cookies de segmentação ou publicidade, ainda verá anúncios, mas estes poderão não ser relevantes para si.

Mais Informações

Para qualquer dúvida sobre a nossa política de cookies e as suas opções, entre em contato conosco.

Para obter mais detalhes, por favor consulte a nossa Política de Privacidade.

Contato