Utilitários Contábeis

Reforma tributária: O último a sair apague a luz


17/02/2025
Brasil
Migalhas

A reforma tributária do consumo, aprovada pela EC 132/23 e regulamentada pela LC 214/25, alterou por completo a sistemática da tributação sobre o consumo no Brasil. Entre estas modificações, está a extinção do ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI, e a criação de um IVA - Imposto Sobre Valor Agregado Dual, cuja alíquota modal será, segundo estimativas, de 28%1.

Caso a estimativa se concretize, o Brasil tomará o posto da Hungria, que hoje lidera o ranking infame de países com a maior alíquota de IVA, em 27%2.

Apesar da simplificação e modernização do sistema tributário, a adoção da alíquota recorde deve ser encarada como o "calcanhar de aquiles" de uma reforma que foi muito pouco refletida e ponderada, fruto de uma condução política que preteriu a boa técnica em favor do frenesi arrecadatório.

Este açodamento, que resultou na maior carga tributária do mundo, pode vir com um alto preço a se pagar: a fuga de Capital, que afeta diretamente a geração de empregos, arrecadação de tributos e, por fim, a prestação de serviços públicos.

Explica-se. Em um mundo cada vez mais globalizado, conectado e de fronteiras reduzidas, o Capital move-se quase que sem amarras em busca de condições econômicas mais favoráveis, dotado de uma excepcional extraterritorialidade e mobilidade espacial em escala global, em contraste com séculos passados, em que era atrelado ao espaço físico das suas enormes instalações, o que impedia a sua fuga para ambientes economicamente mais atrativos.

Por outro lado, as capacidades do Poder Público não evoluíram na mesma proporção, revelando-se demasiado lento para acompanhar a velocidade e o dinamismo do Capital, quer pela burocracia inata do Poder Público, quer pela ineficiência pontual de alguns governos. Seja como for, o fato é que as capacidades lentas dos poderes locais em comparação com o Capital fizeram com que se tornassem reféns deste e, portanto, submisso às suas reivindicações, sob pena de abandono.

Para o bem ou para o mal, os Estados não são mais dotados da eficiência coativa de outrora para controlar o Capital e fazê-lo curvar-se às suas exigências.

Escrevendo sobre o tema, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman4 afirmou:

"Mas o Capital se tornou extraterritorial, leve, desembaraçado e solto numa medida sem precedentes, e seu nível de mobilidade espacial é na maioria dos casos suficiente para chantagear as agências políticas dependentes de território e fazê-las se submeterem a suas demandas."

Para os países, isto significa um aumento exponencial da responsabilidade na tomada de decisões pelos stakeholders. Uma "canetada" pode custar décadas de recessão, pelo risco imediato de expulsar o Capital do país, dada a sua capacidade de estabelecer suas bases flexíveis e móveis em - quase - qualquer outro lugar do globo. 

A reforma aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente da República foi construída sob a premissa de manutenção da carga tributária. Contudo,  a manutenção da carga tributária lato sensu não significa necessariamente a manutenção da carga tributária setorial.

Carga tributária é a relação entre o PIB - Produto Interno Bruto e a arrecadação de tributos. Sua análise fria pode esconder distorções tributárias setoriais que, na realidade, estão provocando o sufocamento de áreas essenciais para o desenvolvimento econômico nacional. 

E o que a reforma tributária fez foi justamente isto: sob o pretexto de manutenção da carga tributária, onerou sobremodo setores essenciais à economia. 

Em alguns casos, como o setor de serviços, o aumento da carga tributária setorial será de mais de 200%, de acordo com artigo publicado neste Migalhas. Para o setor de construção civil, este aumento pode chegar a 40% em algumas situações5. Para o setor de saneamento, estima-se um aumento de quase 200%6. Noutra oportunidade, as empresas do setor de tecnologia da Informação alertaram para um aumento de até 20% no preço dos planos de internet7.

Estes são apenas alguns - poucos - exemplos de setores negativamente afetados pela reforma, desconsiderados em favor de uma desvairada ambição de algumas personalidades em gravar seu nome na história, como aqueles que aprovaram a tão sonhada reforma do sistema tributário nacional. Mas, afinal, alguém tinha que pagar a conta.

Não à toa, a sabedoria popular alerta: o apressado come cru. Na falta de um estudo prévio detalhado acerca das estimativas de impacto por setor, acabou-se onerando setores estrategicamente importantes da economia, mediante uma ilusória esperança de que o Capital permanecerá onde está. 

Recentemente, uma matéria do jornal Estadão apontou que a fuga de Capital estrangeiro da Bolsa em 2024 é a maior em 9 anos8. Enquanto isso, o partido governista reiteradamente despreza9 a importância do Capital para o desenvolvimento nacional, priorizando um discurso populista que é infundado e irresponsável.

A adoção da maior alíquota de IVA do mundo se soma ao ambiente histórico de baixa confiança na economia e altamente burocrático, prejudicando ainda mais o desenvolvimento econômico que é impulsionado pelo Capital. Perdemos em geração de empregos e arrecadação de tributos e, com a perda de arrecadação, precariza-se a prestação de serviços públicos, o que termina por agravar as desigualdades sociais.

Os gestos recentes do Executivo e Legislativo brasileiros transmitem uma mensagem muito clara para o Capital: fuja para as colinas - ou para onde quiser. Para o Capital, não há problema. A palavra de ordem agora é flexibilidade, como defende Bauman n. Volátil, móvel e, enfim, leve. O diagnóstico de Bauman nos ensina que a tributação deve ser repensada à luz das novas dinâmicas globais, com estruturas mais flexíveis e adaptadas a um mundo em que o Capital raramente possui raízes fixas. 

Bauman estava certo. Agora, resta saber quando - e quanto - o Brasil pagará o preço.


O nosso site usa cookies

Utilizamos cookies e outras tecnologias de medição para melhorar a sua experiência de navegação no nosso site, de forma a mostrar conteúdo personalizado, anúncios direcionados, analisar o tráfego do site e entender de onde vêm os visitantes.

Centro de preferências de cookies

A sua privacidade é importante para nós

Cookies são pequenos arquivos de texto que são armazenados no seu computador quando visita um site. Utilizamos cookies para diversos fins e para aprimorar sua experiência no nosso site (por exemplo, para se lembrar dos detalhes de login da sua conta).

Pode alterar as suas preferências e recusar o armazenamento de certos tipos de cookies no seu computador enquanto navega no nosso site. Pode também remover todos os cookies já armazenados no seu computador, mas lembre-se de que a exclusão de cookies pode impedir o uso de determinadas áreas no nosso site.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são essenciais para fornecer serviços disponíveis no nosso site e permitir que possa usar determinados recursos no nosso site.

Sem estes cookies, não podemos fornecer certos serviços no nosso site.

Cookies funcionais

Estes cookies são usados para fornecer uma experiência mais personalizada no nosso site e para lembrar as escolhas que faz ao usar o nosso site.

Por exemplo, podemos usar cookies de funcionalidade para se lembrar das suas preferências de idioma e/ ou os seus detalhes de login.

Cookies de medição e desempenho

Estes cookies são usados para coletar informações para analisar o tráfego no nosso site e entender como é que os visitantes estão a usar o nosso site.

Por exemplo, estes cookies podem medir fatores como o tempo despendido no site ou as páginas visitadas, isto vai permitir entender como podemos melhorar o nosso site para os utilizadores.

As informações coletadas por meio destes cookies de medição e desempenho não identificam nenhum visitante individual.

Cookies de segmentação e publicidade

Estes cookies são usados para mostrar publicidade que provavelmente lhe pode interessar com base nos seus hábitos e comportamentos de navegação.

Estes cookies, servidos pelo nosso conteúdo e/ ou fornecedores de publicidade, podem combinar as informações coletadas no nosso site com outras informações coletadas independentemente relacionadas com as atividades na rede de sites do seu navegador.

Se optar por remover ou desativar estes cookies de segmentação ou publicidade, ainda verá anúncios, mas estes poderão não ser relevantes para si.

Mais Informações

Para qualquer dúvida sobre a nossa política de cookies e as suas opções, entre em contato conosco.

Para obter mais detalhes, por favor consulte a nossa Política de Privacidade.

Contato